Os Patriarcas do Chan e a Transmissão da Mente

A tradição Chan (Zen) preservada no Templo Shaolin é transmitida de mestre para discípulo através de uma linhagem ininterrupta conhecida como a sucessão dos Patriarcas.

Na China, os seis primeiros Patriarcas são reverenciados como os principais transmissores dos ensinamentos de meditação e realização direta da natureza da mente:

  1. Bodhidharma (达摩) – o fundador do Chan na China.
  2. Huike (慧可) – símbolo da determinação na busca pelo Dharma.
  3. Sengcan (僧璨) – autor do clássico “Xinxin Ming” (A Confiança na Mente).
  4. Daoxin (道信) – consolidou as primeiras comunidades Chan.
  5. Hongren (弘忍) – grande organizador e transmissor da tradição.
  6. Huineng (慧能) – o Sexto Patriarca, considerado um dos maiores mestres da história do Chan.

Entre as obras mais importantes desta linhagem encontra-se o “Xinxin Ming”, atribuído ao Terceiro Patriarca, Sengcan. Este poema apresenta de forma profunda e direta a essência do Chan: a superação das dualidades, o abandono dos apegos e a confiança na natureza original da mente.

Sobre o Xinxin Ming – A Confiança na Mente

O Xinxin Ming (信心铭), tradicionalmente atribuído ao Terceiro Patriarca Chan, Sengcan (僧璨), é um dos textos mais antigos e importantes da tradição Chan (Zen). Escrito em forma de poema, apresenta de maneira simples e profunda os princípios fundamentais da realização espiritual ensinada pelos Patriarcas.

O termo Xinxin pode ser compreendido como “confiança na mente” ou “confiança na natureza original”. Não se refere a uma crença cega, mas à confiança direta na realidade tal como ela é, além das divisões criadas pelo pensamento.

Ao longo do poema, Sengcan ensina que o sofrimento surge quando a mente se apega a preferências, julgamentos e dualidades, como certo e errado, ganho e perda, amor e aversão. O Caminho, segundo o autor, torna-se evidente quando cessam as discriminações excessivas e a mente repousa em sua condição natural, ampla e livre.

Por essa razão, o Xinxin Ming é considerado uma síntese da filosofia e da prática Chan. Seus versos convidam o leitor a abandonar os extremos, harmonizar-se com a natureza das coisas e reconhecer a unidade fundamental que permeia todos os fenômenos.

Estudado há mais de mil anos por monges, praticantes e estudiosos, o Xinxin Ming permanece como um dos mais belos e profundos textos da tradição Chan, servindo como guia para a contemplação, a meditação e o cultivo da sabedoria.

A seguir, apresentamos este texto clássico, estudado e recitado por praticantes Chan há mais de mil anos.

Uma leitura Shaolin

Se fosse resumir todo o Xinxin Ming para um discípulo Shaolin em uma única frase, ela seria:

但莫憎爱 洞然明白

“Apenas não se apegue nem rejeite; então tudo se tornará claro.”

Por isso, muitos mestres Chan consideram o Xinxin Ming, junto com o 心经 (Xīnjīng, Sutra do Coração) e o 坛经 (Tánjīng, Sutra da Plataforma) de Huineng, uma das obras mais importantes para compreender a essência do Chan transmitido em Shaolin.

信心铭 — A Confiança na Mente
(Tradução direta)

O Grande Caminho não é difícil,
apenas evita escolhas e preferências.
Não cultive amor nem aversão,
e tudo se tornará claro por si mesmo.

Uma diferença mínima,
e céu e terra ficam separados.
Se desejas que a Verdade se manifeste diante de ti,
não mantenhas apego nem rejeição.

Quando o favorável e o desfavorável entram em conflito,
surge a doença da mente.
Sem compreender o princípio profundo,
é inútil esforçar-se para alcançar a quietude.

Perfeito e vasto como o grande vazio,
nada lhe falta, nada lhe sobra.
É por causa da aceitação e da rejeição
que não o percebemos como ele é.

Não persigas as condições externas,
nem permaneças preso ao vazio.
Mantém uma mente serena e equilibrada,
e as ilusões desaparecerão por si mesmas.

Quando procuras parar o movimento através da imobilidade,
essa própria imobilidade gera mais movimento.
Enquanto permaneceres preso aos dois extremos,
como conhecerás a Unidade?

Se a Unidade não é compreendida,
ambos os lados fracassam.
Ao tentar afastar o ser, afirmas o não-ser;
ao apegar-te ao vazio, afastas-te dele.

Quanto mais falas e mais pensas,
mais te afastas da verdade.
Cessa palavras e pensamentos,
e nada ficará inacessível.

Retornar à raiz é encontrar o significado;
seguir as aparências é perder a essência.
Num instante de retorno à luz interior,
ultrapassa-se o vazio aparente.

As transformações desse vazio aparente
nascem de visões ilusórias.
Não procures a Verdade;
apenas abandona as opiniões.

Não permaneças preso às duas visões;
cuida para não as perseguir.
Assim que surge o certo e o errado,
a mente se perde na confusão.

Os dois existem por causa do Um,
mas nem mesmo ao Um te apegues.
Quando a mente una não surge,
as dez mil coisas permanecem sem culpa.

Sem culpa, sem fenômenos;
sem fenômenos, sem mente.
O sujeito desaparece com o objeto;
o objeto desaparece com o sujeito.

O objeto existe por causa do sujeito;
o sujeito existe por causa do objeto.
Se queres conhecer ambos,
sabe que sua origem é o vazio único.

Neste vazio único, ambos são idênticos,
e nele estão contidas todas as formas.
Sem distinguir refinado e grosseiro,
como poderia haver parcialidade?

A essência do Grande Caminho é vasta;
não é fácil nem difícil.
As visões estreitas geram dúvida,
fazendo-nos correr ou retardar o passo.

Ao apegar-se, perde-se a medida
e inevitavelmente se cai em caminhos desviados.
Deixa tudo seguir naturalmente,
e a essência não conhecerá ida nem permanência.

Segue tua natureza em harmonia com o Caminho,
livre e sem aflições.
Prender-se aos pensamentos afasta da verdade;
a obscuridade e a apatia não são benéficas.

Se não é bom cansar o espírito,
para que distinguir distante e próximo?
Se desejas o Veículo Único,
não rejeites os seis objetos dos sentidos.

Quando os seis objetos não são rejeitados,
eles próprios são a iluminação.
O sábio nada força;
o ignorante prende-se a si mesmo.

O Dharma não possui diferenças;
as diferenças nascem do apego ilusório.
Usar a mente para buscar a mente,
não é esse um grande erro?

A ilusão produz inquietação e serenidade;
a realização não conhece preferência nem aversão.
Todas as dualidades
surgem da discriminação.

Como flores no céu de um sonho,
por que tentar agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado,
abandona tudo de uma vez.

Se os olhos não adormecem,
todos os sonhos desaparecem.
Se a mente não cria distinções,
todas as coisas são uma só realidade.

Na essência profunda dessa realidade única,
todos os condicionamentos são esquecidos.
Contemplando igualmente todas as coisas,
retorna-se à natureza espontânea.

Quando desaparecem as razões e comparações,
não há como medir ou comparar.
Quando o movimento repousa, não há movimento;
quando a quietude se move, não há quietude.

Se ambos deixam de existir,
onde poderia permanecer a unidade?

Ao atingir o extremo derradeiro,
não permanecem regras nem padrões.
Quando a mente se harmoniza na igualdade,
toda atividade forçada cessa.

Toda dúvida desaparece completamente,
e a confiança correta torna-se reta e natural.
Nada permanece retido;
nada precisa ser lembrado.

Vazia e luminosa, a mente ilumina a si mesma,
sem esforço do pensamento.
É um estado além da reflexão,
que o intelecto não pode medir.

No mundo do Verdadeiro Assim,
não há outro nem eu.
Para entrar rapidamente em harmonia com ele,
apenas fala da não-dualidade.

Na não-dualidade tudo é idêntico;
nada fica de fora.
Os sábios das dez direções
todos entram neste princípio.

Este princípio não conhece demora nem rapidez;
um único pensamento contém dez mil anos.
Não está aqui nem ali,
e está presente diante dos olhos em todas as direções.

O infinitamente pequeno é igual ao infinitamente grande,
quando desaparecem os limites.
O infinitamente grande é igual ao infinitamente pequeno,
quando não se veem fronteiras.

O ser é precisamente o não-ser;
o não-ser é precisamente o ser.
Se não compreendes assim,
não te detenhas em opiniões.

Um é tudo;
tudo é um.
Se isso é compreendido,
que motivo há para preocupação?

A mente de confiança é não-dual;
a não-dualidade é a mente de confiança.

Quando as palavras cessam,
não há passado, presente nem futuro.

O Mestre Chan Sengcan, Terceiro Patriarca

Sobre o Mestre Chan Sengcan, Terceiro Patriarca do Chan, não se conhecem seu sobrenome nem sua terra natal. Os registros históricos apenas mencionam que ele, ainda como leigo, foi visitar o Segundo Patriarca Huike, que havia se refugiado no Monte Sikong, em Shuzhou (atual sudoeste do condado de Yuexi, Anhui), durante um período de perseguição. Ali recebeu seus ensinamentos, reconhecimento e transmissão do Dharma, tornando-se o Terceiro Patriarca do Chan.

Quanto às circunstâncias de sua iluminação, os registros das Lâmpadas (Jingde Chuandeng Lu) relatam o seguinte:

Após Bodhidharma transmitir o Dharma ao Segundo Patriarca Huike, retornou ao Ocidente. Huike então passou a ensinar de acordo com as circunstâncias, guiando seres e buscando um sucessor para transmitir a túnica patriarcal.

Durante a perseguição ao Budismo promovida pelo imperador Wu da dinastia Zhou do Norte, Huike viajou com o Mestre Lin, protegendo sutras e imagens sagradas, ocultando-os entre o povo. Em determinado momento retirou-se para viver em reclusão no Monte Sikong.

Foi nesse período, no segundo ano da era Tianping (535), que Huike encontrou Sengcan.

Naquela época Sengcan era um leigo com mais de quarenta anos de idade e sofria de uma grave enfermidade causada pelo vento (uma doença crônica severa).

Os registros resumem sua origem em apenas oito caracteres:

“Não se conhece seu sobrenome nem sua posição social; desconhece-se sua procedência.”

Talvez por causa de sua doença, Sengcan procurou Huike para buscar libertação do sofrimento. Sentindo-se profundamente atormentado, acreditava possuir pesados obstáculos cármicos e desejava arrepender-se completamente.

Assim perguntou:

— Mestre, estou atormentado por esta enfermidade. Peço que purifique meus pecados.

Huike respondeu:

— Traga-me seus pecados e eu os purificarei.

Sengcan permaneceu em silêncio por um longo tempo e finalmente respondeu:

— Procurei meus pecados, mas não consigo encontrá-los.

Huike disse:

— Então já os purifiquei para você. A partir de agora, viva apoiado no Buda, no Dharma e na Sangha.

Sengcan perguntou novamente:

— Ao vê-lo diante de mim, compreendo o que é a Sangha. Mas ainda não compreendo o significado de Buda e Dharma.

Huike respondeu:

— Esta própria mente é o Buda. Esta própria mente é o Dharma. Buda e Dharma não são dois. A Sangha também é assim. Fora da mente não há Dharma; fora da mente não há Buda. Os Três Tesouros são estabelecidos sobre uma única mente, possuindo uma mesma essência e diferentes nomes.

Ao ouvir essas palavras, Sengcan despertou profundamente e exclamou:

— Hoje compreendo que a natureza do pecado não está dentro, nem fora, nem no meio. Sua natureza é vazia. Assim como a mente original é vazia e capaz de dar origem a todas as coisas, também Buda e Dharma não são dois.

Ao ouvir essa resposta, Huike teve grande estima por Sengcan. Imediatamente raspou sua cabeça e o aceitou como discípulo, dizendo:

— Tu és um tesouro precioso. Teu nome será Sengcan.

Foi assim que recebeu o nome pelo qual se tornou conhecido.

No dia dezoito do terceiro mês daquele mesmo ano, Sengcan recebeu a ordenação monástica completa. Depois disso sua enfermidade começou gradualmente a desaparecer.

Permaneceu servindo Huike por mais de dois anos.

Certo dia, Huike lhe disse:

— Bodhidharma veio de muito longe, da Índia, e transmitiu-me o Tesouro do Olho do Verdadeiro Dharma juntamente com a túnica da fé. Agora transmito tudo isso a você. Guarde-o cuidadosamente para que a linhagem não seja interrompida.

Então recitou o seguinte verso:

Originalmente existe um terreno de causas e condições;
sobre esse terreno florescem as flores.
Originalmente não existe semente alguma;
portanto, as flores jamais nasceram.

Após entregar a túnica patriarcal, advertiu:

— Recebendo meu ensinamento, deves permanecer nas montanhas profundas. Ainda não é o momento de ensinar amplamente. Haverá grandes calamidades no país.

Sengcan perguntou:

— Já que o senhor prevê isso, peço que me instrua.

Huike respondeu:

— Não é um conhecimento meu. Trata-se de uma antiga profecia transmitida por Bodhidharma. Pelos cálculos do tempo, ela ocorrerá durante tua vida. Recorda-te bem destas palavras e evita os desastres mundanos. Quanto a mim, ainda tenho antigas dívidas cármicas a saldar. Vai e pratica bem. Quando chegar o momento oportuno, transmite este Dharma.

Após concluir a transmissão, Huike deixou o Monte Sikong e partiu para Yedu.

Sengcan seguiu fielmente as instruções de seu mestre. Em vez de divulgar imediatamente os ensinamentos patriarcais, viveu discretamente entre o Monte Sikong e o Monte Wanggong, levando uma vida de retiro por mais de dez anos.

Durante esse período teve apenas um discípulo: Daoxin.

Segundo o Registro dos Mestres da Lankavatara:

“O Mestre Sengcan permaneceu oculto no Monte Sikong, sentado silenciosamente em pureza. Não escreveu tratados nem divulgou amplamente os ensinamentos. Apenas Daoxin serviu Sengcan durante doze anos.”

O Mestre Sengcan entrou em nirvana no segundo ano da era Daye da dinastia Sui (606).

Antes de partir, disse à assembleia:

— As pessoas consideram extraordinário morrer sentadas. Eu, porém, partirei hoje de pé, demonstrando liberdade diante da vida e da morte.

Após dizer isso, segurou-se em um galho de árvore e serenamente abandonou o corpo.

Mais tarde recebeu o título póstumo de:

Jianzhi Chanshi (鉴智禅师) – Mestre Chan da Sabedoria Espelhada.

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