A Pintura da Harmonia dos Três Ensinamentos: a Obra-Prima que Inspirou a Famosa Estela do Templo Shaolin
A pintura clássica chinesa conhecida como “Pintura de Uma Esfera de Harmonia” (em chinês: Yituan Heqi Tu / 一团和气图) é uma obra-prima que une arte, ilusão de ótica e filosofia. Ela foi pintada originalmente em 1465 pelo próprio imperador Chenghua (Zhu Jianshen), o oitavo governante da Dinastia Ming. Zhu Jianshen tinha apenas 18 anos quando assumiu o trono e criou esse desenho em papel logo no seu primeiro ano de reinado. Além de governante, ele era muito talentoso com a escrita e o desenho.
一團和氣 (Yī tuán hé qì) Caligrafia tradicional chinesa que significa “Uma esfera de harmonia”. Um símbolo de paz completa, gentileza e boas energias para o ambiente e para a vida.
A inspiração para a obra veio de uma infância marcada por traumas reais. Em 1449, quando Zhu Jianshen tinha apenas dois anos de idade, seu pai (o Imperador Zhengtong) liderou um exército contra os guerreiros mongóis. A campanha deu muito errado, o exército foi destruído e seu pai foi capturado e feito prisioneiro pelos inimigos. Com a corte em pânico, o tio do menino assumiu o trono como o novo imperador (Jingtai). A partir daí, o tio tirou o título de “Príncipe Herdeiro” do garoto para dar ao seu próprio filho. O pequeno Zhu Jianshen foi retirado do palácio principal e isolado em um palácio menor e abandonado. Ele viveu anos sob vigilância constante dos espiões do tio, escondido e com medo de ser assassinado ou envenenado a qualquer momento, sem poder ver a mãe ou os avós. Por causa desse trauma e do pânico na infância, ele cresceu gago e muito tímido.
Nesse período sombrio fora do poder, quase todos o abandonaram. A única pessoa que ficou ao seu lado e o protegeu foi uma jovem criada chamada Wan Zhen’er, que cuidava de sua comida para evitar envenenamentos. Anos depois, seu pai foi libertado pelos mongóis, voltou para a China e deu um golpe de estado para recuperar o trono. Assim, Zhu Jianshen voltou a ser o príncipe herdeiro e, após a morte do pai, tornou-se o imperador. Ele transformou a criada Wan Zhen’er na consorte mais amada de sua vida.
Foi justamente por ter vivido na pele o terror da divisão que ele pintou esta obra como uma mensagem política direta para seus ministros e para o povo. A corte estava marcada por intensas divisões políticas e intrigas, e o jovem monarca queria mostrar que era preciso deixar de lado as diferenças intelectuais ou ideológicas para gerar uma “esfera de harmonia” (yituan heqi) no império. A pintura original feita por ele ainda existe e está guardada no famoso Museu do Palácio na Cidade Proibida, em Pequim.
O que torna esta obra-prima genial é a sua famosa ilusão de ótica e o profundo conceito filosófico por trás dela. À primeira vista, a pintura mostra a figura circular e rechonchuda do Buda Sorridente (Maitreya) sentado de pernas cruzadas. No entanto, ao olhar mais de perto, você descobre que três pessoas estão abraçadas, fundindo-se em uma só silhueta. À esquerda, há um ancião usando uma coroa taoísta, representando o Taoísmo (tradicionalmente associado a Laozi). À direita, está um homem usando um chapéu quadrado típico de literato, representando o Confucionismo (tradicionalmente associado a Confúcio ou ao poeta Tao Yuanming). Ambos seguram os lados opostos de um mesmo pergaminho sagrado. No centro e fundo, há um monge budista de cabeça raspada, cujos braços repousam sobre os ombros dos outros dois enquanto ele segura um terço budista (jizhu). Suas feições faciais misturam-se com as dos outros para criar o rosto central.
Essa composição é a representação visual definitiva do conceito chinês de Sanjiao Heyi (三教合一), ou a “Harmonia dos Três Ensinamentos”. Ela prega que o Confucionismo, o Taoísmo e o Budismo não devem competir entre si, mas sim coexistir de forma unificada e pacífica como os pilares da cultura e sabedoria chinesas. A obra se inspira no famoso conto tradicional “As Três Risadas no Ribeiro do Tigre”, que narra o encontro amigável entre o monge budista Huiyuan, o poeta confucionista Tao Yuanming e o mestre taoísta Lu Xiujing. Eles ficaram tão concentrados conversando sobre filosofia que quebraram regras monásticas sem perceber, caindo na gargalhada juntos.
Essa pintura do imperador Chenghua é a antecessora histórica direta da famosa pedra esculpida no Templo Shaolin. O imperador criou o desenho original em papel em 1465, e exatamente 100 anos depois, em 1565 (durante o reinado do imperador Jiajing, também na Dinastia Ming), o Templo Shaolin esculpiu a famosa estela de pedra baseada nessa imagem. O nome oficial e completo dessa estela, localizada bem ao lado da Torre do Sino e em frente ao Salão Principal do monastério, é Estela do Diagrama de Louvor da Unidade Primordial dos Três Ensinamentos e Nove Escolas(em chinês: Hunyuan Sanjiao Jiuliu Tu Zan Bei / 混元三教九流图赞碑). Ela foi esculpida pelo príncipe cientista Zhu Zaiyu, membro da família imperial Ming. Embora o imperador tenha inventado esse estilo específico de retrato circular, foi a versão em pedra gravada no Templo Shaolin que se tornou o símbolo global mais famoso dessa filosofia, servindo até hoje como base para o logotipo moderno do Templo Shaolin.
O termo “Nove Escolas” (em chinês: Jiuliu / 九流) incluído no nome da pedra nasceu durante a era de ouro da filosofia chinesa (entre os séculos VI e III a.C.), um período histórico chamado de “Cem Escolas de Pensamento”. Naquela época, vários sábios viajavam pelo país oferecendo soluções para trazer paz, ordem e sabedoria à sociedade. Mais tarde, historiadores imperiais organizaram essa enorme quantidade de ideias em nove grandes correntes de pensamento principais. Na imagem da pedra, as nove escolas são representadas pelo pequeno círculo com linhas que se cruzam no pergaminho que os sábios seguram, chamado de “Diagrama das Nove Escolas”, mostrando vários rios diferentes correndo e se unindo em um único fluxo. As nove correntes de pensamento clássicas são:
Escola Confucionista (Ru Jia): Fundada por Confúcio, foca na moral, no respeito à família e no dever social, defendendo que a sociedade entra em harmonia quando as pessoas praticam a bondade, respeitam os mais velhos e seguem os rituais corretos.
Escola Taoísta (Dao Jia): Ligada ao mestre Laozi, foca na natureza, simplicidade e liberdade, propondo viver em equilíbrio com o “Tao” (o fluxo do universo), agindo de forma natural e sem forçar as coisas (wu wei).
Escola do Legalismo (Fa Jia): Foca em leis estritas e no controle do governo, defendendo que os seres humanos precisam de regras duras e punições claras para manter a ordem (foi a filosofia usada para unificar a China pela primeira vez).
Escola Moísta (Mo Jia): Criada por Mozi, foca no amor universal e na ajuda mútua, pregando que todas as pessoas deveriam cuidar umas das outras igualmente, rejeitando guerras agressivas e gastos exagerados com luxo.
Escola dos Nomes ou Lógicos (Ming Jia): Foca na linguagem, lógica e debate, estudando a relação entre as palavras e a realidade física através de paradoxos para testar os limites do pensamento humano.
Escola do Yin-Yang ou Naturalistas (Yin-Yang Jia): Estuda como o mundo funciona através do equilíbrio de forças opostas (Yin e Yang) e dos cinco elementos fundamentais (metal, madeira, água, fogo e terra), dando origem à astrologia e à medicina tradicional chinesa.
Escola da Diplomacia ou Estrategistas (Zongheng Jia): Formada por conselheiros políticos que viajavam entre reinos ensinando governantes a ganhar discussões, criar alianças ou enganar inimigos sem precisar lutar.
Escola Eclética ou Absorvente (Za Jia): Em vez de seguir apenas uma linha, pegava as melhores partes do Confucionismo, Taoísmo e Legalismo e misturava tudo em um sistema prático de governo.
Escola Agrícola (Nong Jia): Uma filosofia utópica focada na agricultura e igualdade social, que defendia que todos na sociedade, inclusive os governantes e reis, deveriam trabalhar no campo e plantar o seu próprio alimento ao lado do povo comum.
A estrutura completa da estela de pedra de Shaolin é dividida em três partes de cima para baixo: o título superior com os caracteres “Hunyuan Sanjiao Jiuliu Tu Zan”; o texto poético explicativo de 128 caracteres esculpido logo abaixo; e o desenho circular na base com os três sábios fundidos. A tradução completa do poema filosófico gravado na pedra apresenta o seguinte texto:
O Budismo serve para enxergar a própria natureza; O Taoísmo serve para proteger a saúde e a vida; O Confucionismo serve para clarear as relações humanas e corrigir a moral social.
A escola Agrícola foca no trabalho essencial da terra; A escola Moísta foca em preparar e proteger o mundo; A escola dos Nomes exige que as palavras combinem com a realidade; A escola Legalista serve de apoio para criar o sistema de leis.
Os Diplomatas ensinam como responder e agir na política; Os Contadores de Histórias servem para consultar a sabedoria do povo; A escola do Yin-Yang ensina a seguir o ritmo dos céus; A escola da Medicina investiga a real origem da saúde humana; E a escola Eclética conecta todos esses saberes, transmitindo a história sem inventar falsidades.
Aquele que tenta abraçar tudo acha difícil se especializar; Aquele que se especializa demais acaba não conhecendo o todo.
O Sol, a Lua e as Estrelas iluminam juntos o céu; O ouro, o jade e os cinco grãos alimentam e enriquecem a terra; O coração, o corpo, a pele, o nariz, a boca, os ouvidos e os olhos formam um único ser.
Abaixo, os caminhos para se fazer o bem são muitos e diferentes, mas todos servem para trazer ordem e paz.
Apenas as pessoas de mente fechada são teimosas, criando divisões e excluindo quem pensa diferente. Não tenham medo de haver caminhos diferentes, pois cada um tem a sua utilidade.
O segredo mais importante está em harmonizar tudo, unindo os saberes por um único fio condutor.
Os Três Ensinamentos são um só corpo. As Nove Escolas nascem da mesma fonte. As cem filosofias explicam a mesma verdade. E os dez mil caminhos entram pela mesmíssima porta.
O poema divide as tarefas da nossa mente de um jeito prático através de três pilares: o Budismo cuida da mente espiritual (para meditar e entender quem você é por dentro); o Taoísmo cuida do corpo físico (para cuidar da energia, respiração e longevidade); e o Confucionismo orienta o papel no mundo (para ser um bom cidadão, respeitar a família e ter ética). Os monges do Templo Shaolin aplicam essa receita até hoje em sua rotina, meditando como budistas, treinando movimentos de energia física do Kung Fu inspirados nos conceitos naturais taoístas e seguindo regras rígidas de respeito social confucionistas.